Na noite do dia 08 de junho, o coordenador e diretor da Atrium Escola de Música Guga Murray, palestrou a arte e a música no processo de aprendizagem. Este é o primeiro artigo desta editoria criada para você conhecer um pouco mais sobre a música e sua importância e também sobre a Atrium e seus eventos mensais.

I – O tempo quantitativo x tempo qualitativo

        Podemos perceber como a demanda atual pelo tempo dos nossos jovens é quantitativa. Isso se vê refletido nas respostas que exigimos dos nossos estudantes às tarefas solicitadas. Essas respostas são, quase sempre de ordem quantitativa: fazer tantas folhas de tarefa, escrever tantas linhas de redação, realizar n simulados para o Enem, conseguir uma nota alta nos testes, provas, exames, bimestres, trimestres, recuperações, segundas e terceiras chamadas, trabalhos de casa. Não estou dizendo que essas tarefas não tenham importância, ao contrario, são importantes e fundamentais, sempre que tenhamos em conta que o conteúdo exigido seja apreendido e que o estudante se instrumentalize dele para a sua vida presente e futura, o que nem sempre acontece. Que levante a mão aquele adulto que saiba realizar uma equação de segundo grau. Ou que saiba de memória todos os elementos da tabela periódica.

         Relegamos ao segundo plano a importância do tempo qualitativo na vida do estudante. Aquele que não medimos no relógio. Um tempo, poderíamos dizer, acronométrico. O tempo, quando desprovido de significância emocional poderia ser considerado um tempo perdido, um tempo gasto em atividade não formante, que não instrumentalizará o ser humano para a sua vida presente e futura. Esse tempo gasto poderia dizer-se perdido e o tempo perdido é perdido para sempre.

    2 – teoria das felicidades

         Já é de larga data que professores, pesquisadores, psicólogos, e teóricos defendem um processo de aprendizagem participativo, lúdico, respeitoso com a individualidade e singularidade  de cada ser humano. Intuímos e comprovamos que em  um sistema de aprendizagem mais lúdico, onde o estudante tem espaço para expressar-se e personalizar suas “tarefas”, conseguimos resultados diferenciados em relação ao ensino tradicional. Novos sistemas de aprendizagem baseados em teorias desenvolvidas por pensadores como Piaget, Gardner, Freire, Pacheco vêm projetando dados neste sentido. Esses resultados e  as comprovações dos mesmos se dão de maneira empírica e estatística até meados dos anos 80 quando avanços tecnológicos na área da neurociência nos permitiram observar e metrizar como o cérebro humano funciona quando submetido a diferentes estímulos.

          Baseando-nos em observações científicas realizadas com aparelhos que “escaneam” o cérebro de pessoas realizando algumas atividades, como ler, cantar, ouvir música, tocar, brincar, conversar, realizar tarefas em dupla ou em grupo, pudemos chegar a uma conclusão estarrecedora: o sujeito que vivencia emoções positivas durante uma atividade retém aquela experiência em uma área do cérebro profunda e acessará aquelas informações com mais facilidade e durante muito tempo. Podemos concluir que o que se aprende brincando, com prazer e afeto permanece como ferramenta para sempre na vida do ser humano.

      Neste ponto, cabe ressaltar a diferença entre dois tipos de “felicidade” no processo de aprendizagem: a felicidade hedônica e a eudaimônica.  Cito o artigo publicado no site sustentabiliarte: “Enquanto a felicidade hedônica se refere primariamente à somatória das experiências afetivas positivas vivenciadas por um indivíduo, a felicidade eudaimônica, um conceito originalmente formulado por Aristóteles, envolve um senso de propósito e direcionamento da vida para alcançar um potencial. A eudaimonia é um tipo de felicidade mais profunda, que resulta do esforço feito em direção a algo maior que tenha sentido para a pessoa, algo com nobreza na proposta e que ultrapasse a simples autogratificação.”

         Entendemos que o conjunto de atividades prazerosas no processo educativo é tão importante como a busca do prazer em projetos de mais longo prazo. Por exemplo ao conseguir realizar tarefas de médio e longo prazo, como por exemplo um projeto de feira de ciências, ou uma obra de teatro, ou uma apresentação musical, somam-se as experiências positivas de curto e longo prazo.

Sendo assim, podemos concluir que a felicidade,  ou conjunto de experiências prazenteiras funciona como um catalisador do processo de aprendizagem, fixando de maneira profunda e acessível conteúdos que, de outra forma se perderiam em pouco tempo. A partir dessa conclusão, entendemos que as artes em geral, proporcionam ao estudante a vivência positiva fundamental no processo de aprendizagem, garantindo uma qualidade positiva no tempo vivenciado pelo estudante durante as atividades nas quais está implicado.

     3 – a música no processo de aprendizagem

     Neste ponto, devo ressaltar e descrever a importância da música no processo de aprendizagem. Tanto a música praticada em sala de aula, que chamarei de musicalização como o ensino técnico musical. Entende-se por ensino técnico aquele direcionado à prática de um instrumento musical. Este segundo deverá ser realizado sempre por profissionais especializados, à diferença do primeiro, que na minha opinião, pode e deve ser feito pelo professore de sala de aula.

       O primeiro aspecto a ser destacado é o próprio sentido lúdico da música, tanto é assim que em inglês e francês utilizamos a mesma palavra para tocar e brincar (to play, jouer). O segundo aspecto é o da realização de projetos a médio ou longo prazo, por exemplo: aprender a tocar uma canção é um projeto não imediato, e tocar um instrumento com destreza e liberdade é um projeto a longo prazo. Por isso o aprendizado da música comporta os dois tipos de felicidade descritos acima. O terceiro aspecto, e talvez o mais importante é observado a partir da abordagem neurocientífica. Tocar um instrumento é uma atividade que envolve praticamente todas as regiões do cérebro simultaneamente. Auditiva, visual, motora, emocional, cognitiva. Regiões que ao serem estimuladas de maneira simultânea, geram “caminhos” neuronais novos, melhoram caminhos existentes e terminam por modificar fisicamente o cérebro , criando pontes neurais onde antes não havia nada. Baseado nesses estudos atendemos ao fato de que a atividade de tocar um instrumento pode ser importante aliada a tratamentos de paralisia cerebral, e outras afecções traumáticas ou não, mas isso é outro assunto.

        Outro aspecto a ser destacado é a importância indissociável da prática constante no processo de aprendizagem de um instrumento musical. A repetição de gestos e exercícios motores melhoram o fluxo de informação neuronal, aumentando a espessura da bainha de mielina, que funciona como um isolante neuronal, evitando perdas elétricas no percurso da informação, fazendo a mesma chegar de forma mais eficiente aos músculos.

      Observando todos esses aspectos, não podemos deixar de ressaltar que o mesmo cérebro “treinado” e modificado pela música é aquele que processará informações de todo o tipo, nas relações sociais, no pensamento lógico analítico, no aprendizado de idiomas, e em muitas outras capacidades desejáveis ao ser humano moderno. Prepararemos um ambiente cerebral onde as informações podem ser compartilhadas e interpretadas por todas as regiões de maneira simultânea e criaremos autopistas de alta velocidade para o tráfego das mesmas.

   Por último e talvez o mais importante aspecto é que a única maneira de aprender a tocar um instrumento é com a “mão na massa”, condição primordial para garantir o êxito em todas as metodologias de aprendizagem modernas.

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